Segunda-feira, Junho 30

Irrelevância II

A frase é velha, mas verdadeira: há coisas que, de tanto serem repetidas, parecem que se tornam verdades, embora não tenham nenhuma conexão com a realidade.
Os “evangélicos” brasileiros adoram repetir frases como: “vamos conquistar este bairro!!”, “vamos fazer diferença neste lugar!!”, “vamos impactar esta geração!!”, etc., etc.
Fico impressionado com tamanho cinismo. Ou seria burrice mesmo? Parece que todos os conceitos de “fazer diferença” dessa gente convergem em um único resultado: o “enchimento” (sim, porque não dá para chamar isso de “crescimento”) de seus templos.
Uma das formais mais atuais de “fazer diferença” é chamada “ato profético”. E aí vale quase tudo: desde orar em frente a prefeituras e outras repartições públicas até dar voltas em torno do local que se pretende “conquistar”.
Surge então a pergunta que não quer calar: quando é que estes líderes abandonarão os atos proféticos e partirão para os atos concretos?
Por que ao invés de se fazer concentrações em locais públicos, estes pastores não se unem para a plantação de escolas profissionalizantes nas regiões em que estão instalados? Por que não se unem para a construção de um orfanato? Por que não se mobilizam para ajudarem os deficientes físicos que vivem nas redondezas de seus templos? Por que permitem que miseráveis e famintos continuem a existir debaixo de seus próprios narizes? Por que não se mobilizam para estimular que pessoas que possuem mais de 30 anos e ainda não conseguiram ter uma carreira sólida voltem a estudar? Por que preferem liderar campanhas “mobilizando toda a nação e blá blá blá” a cuidar do pobre, da viúva e do órfão? Por que não estimulam a cultura, a leitura e a arte?
Não fosse eu uma pessoa tão polida, diria que eles preferem as concentrações públicas e as campanhas de abrangência nacional porque gostam de aparecer.
Esta postura que a liderança da maior parte dos grupos evangélicos adotaram é de uma hipocrisia sem tamanho. Ninguém deve passar tanto tempo com as mãos estendidas aos céus orando pela conversão da nação que não tenha tempo para abaixar as mãos e ajudar a levantar o caído. Ninguém deve passar tanto tempo de olhos fechados orando pela conversão da nação, que não tenha tempo de abrir os olhos e enxergar a dura realidade de vida das pessoas que estão à sua frente. Ninguém deve passar tanto tempo de joelhos no chão orando pela conversão da nação, que não possa levantar-se e agir diante da disseminação da desgraça em nossa sociedade.
Sociedade essa que precisa que a igreja evangélica ataque, com a mesma raiva que tem atacado o homossexualismo, a utilização indiscriminada de sacolas plásticas, por exemplo. Sim, senhores pastores!
Tão urgente quanto denunciarmos as práticas pecaminosas do mundo é ensinar aos cristãos do presente tempo que eles têm responsabilidades para com a manutenção deste planeta. E negligenciar isto, também é pecado.
Felizmente há um grande número de pequenos grupos se empenhando em fazer diferença de fato, um a um, face a face.
Quanto aos grandes líderes das grandes denominações, que continuem a conduzir seus rebanhos (de gado, evidentemente) e achando que estão fazendo diferença. Quando estas obras passarem pelo fogo, veremos o que sobra delas.

Galli

Quinta-feira, Junho 26

Confissões II

Desde que escrevi o texto Confissões, tenho me deparado com pessoas me dizendo, em tom de acusação, coisas do tipo: “você mudou”.

Cada indivíduo desenvolve sua própria percepção sobre os fatos que ocorrem no dia-a-dia. Na minha opinião, não, eu não mudei. Apenas tive consolidado em mim idéias e conceitos que sempre caminharam comigo, nestes quase 20 anos de conversão.

Sempre acreditei que o evangelho tem um poder transcendente, que Deus pode, a qualquer momento, invadir a este mundo físico e fazer o que quiser. Mas sempre acreditei também que, o mesmo Deus que “amou o mundo de tal maneira”, o fez livre para tomar suas decisões e arcar com as conseqüências de seus atos.

Mas sei que quem diz que eu mudei não se refere a estes conceitos, mas sim a práticas, coisas mais reais. Então, vamos a elas:

Houve um tempo em minha vida em que eu ficava feliz por orar e as pessoas “caírem” (não estou falando de possessão aqui, estou falando da tal “unção de Toronto”). Hoje afirmo que boa parte das coisas deste tipo que presenciei não tiveram nada de espiritual. Era só emoção. Era só o fruto de um ambiente onde as doenças psíquicas, as angústias e as ansiedades se encontravam com uma música de fundo emocionante e um discurso apelativo. NUNCA presenciei nenhum milagre antes, durante ou depois do fenômeno. Aos que dizem que antes eu fazia as coisas que hoje critico, digo: vocês estão certos.

Houve um tempo em minha vida em que durante minhas pregações utilizava o expediente do “olhe para o seu irmão e diga...”. Aos que ouviram isso de mim, peço perdão. Esta é uma forma de conquistar a atenção do público utilizada por oradores inexperientes e inseguros, e trata o público de forma infantil. Aos que dizem que antes eu fazia as coisas que hoje critico, digo: vocês estão certos.

Houve um tempo em que eu gostava de encerrar minhas pregações com músicas escolhidas muito mais pelo tom emocional de suas melodias do que por sua correção teológica e profundidade poética. Aos que dizem que antes eu fazia as coisas que hoje critico, digo: vocês estão certos.

Vivo em constante questionamento sobre meus valores, minha forma de crer e de viver, de fazer e de ser, por isso jamais me prendi a estas coisas.

Renunciei a algumas práticas para continuar sendo coerente comigo mesmo. Durante um tempo deixei-me violentar pelo ambiente doente-religioso em que vivia, mas hoje estou livre.

Aos que dizem que antes eu fazia as coisas que hoje critico, digo: vocês estão certos. E continuo fortalecendo minha fé na certeza de quem é Aquele em quem eu tenho crido, e convivendo com as incertezas sobre mim mesmo.

Galli

Terça-feira, Fevereiro 26

Os radicais, os extravagantes e a simplicidade do Evangelho

Que a simplicidade já se foi há algum tempo do meio evangélico é fato consumado e perceptível a qualquer um. Mas, nos últimos anos, além da simplicidade os evangélicos (ou a maior parte deles) parecem ter perdido também sua sanidade mental.

Não existe praticamente nenhuma palavra dentro das igrejas que seja utilizada sem algum tipo de adjetivo de intensidade: o louvor agora precisa ser extravagante; a dança é profética; a oração é forte. Já vi gente dizendo com orgulho que é “radical”.

Este discurso me causa estranheza. Ler os evangelhos e perceber a simplicidade com a qual Jesus tratava de todos os temas, de pessoas pegas em flagrante pecado até questões teológicas, e confrontar isso com o que se pratica nas igrejas hoje em dia é um exercício difícil de se fazer, especialmente quando se pretende dizer que ambos os comportamentos fazem parte de uma só fé.

Num mundo ávido por novidades, onde tudo fica obsoleto com muita rapidez, dos artigos tecnológicos até as modas comportamentais, os apóstolos/bispos/pastores/missionários/diáconos/obreiros/etc/e/tc/etc se mostram capazes de transformar o Evangelho da Graça numa verdadeira árvore de natal, cheia de artigos e penduricalhos, na ânsia de encher seus templos e bolsos, além, é claro, de massagear seus sempre inflados e carentes egos.
Só precisa louvar de forma extravagante quem ainda não aprendeu a adorar em Espírito e em Verdade. Só precisa de dança profética quem ainda não descobriu a doçura da caminhada vagarosa e diária com Cristo. Só precisa de oração forte quem cultiva uma espiritualidade fraca. Só precisa ser radical quem considera insuficiente a Graça contida no sacrifico de Cristo, que é capaz de transformar o pior pecador em filho do Deus vivo, herdeiro de Deus e co-herdeiro com Cristo

Quarta-feira, Janeiro 2

E o método não funcionou

A revista “CristianismoHoje” traz em sua última edição reportagem sobre uma importante pesquisa realizada pela Willow Creek Community Church (WCCC), que fica em Chicago, nos EUA. A WCCC é uma referência no atual cenário evangélico global, no que diz respeito à utilização de métodos de crescimento e direcionamento das atividades da igreja de modo a atrair pessoas, num modelo chamado por alguns de “sensível aos que buscam” e por outros de “igreja a gosto do freguês”.

Seu líder Bill Hybels é um dos mais influentes na atualidade, com admiradores e seguidores em diversos países, inclusive o Brasil, onde o evento Leadership Summit, organizado pela associação Willow Creek no Brasil, faz grande sucesso.

Hybels e a WCCC são, juntamente com Rick Warren e a Saddleback Church, os maiores expoentes no momento de uma discussão antiga: até que ponto a renovação da liturgia e da abordagem de não convertidos é aceitável ou mesmo necessária?

Os mais tradicionais continuam afirmando que não há porque mudar a forma de pregação do Evangelho, posto que este não muda e sua mensagem deve ser suficiente para tocar os corações. Outros irão afirmar que embora o Evangelho não tenha mudado a sociedade mudou. E por isso a forma de expor a mensagem e de abordar as pessoas deve acompanhar estas mudanças, sob pena de não ser ouvida.

Evidentemente que você, inteligente leitor, concluiu o óbvio: ambos têm razão.

O Evangelho deve ser pregado sem nenhum tipo de alteração, deve ser levado integralmente, com seriedade e reverência. Mas é também verdade que numa sociedade tão dinâmica quanto esta em que vivemos há que se ter uma certa preocupação estética. Não vejo nenhum motivo para a não utilização de recursos tecnológicos ou de qualquer outro tipo para que pessoas sejam alcançadas com a mensagem da Graça.

Não vejo também nenhum problema em uma igreja local possuir um método de trabalho, que a ajude organizar seu dia-a-dia e ser mais eficiente na obra.

O problema está em se colocar o método acima do Evangelho e a própria obra acima das pessoas. O problema está em não saber diferenciar prioridade e acessório. O problema está em confundir músicas emocionantes com louvor e adoração, mensagens onde pessoas são expostas com exortação e mensagens aguadas com amor. O problema está em considerar a estética mais importante que a ética. O problema está em se considerar presença nas atividades da igreja sinônimo de vida em comunidade, presença na escola bíblica com discipulado e presença nos cultos de oração com vida devocional.

E esta confusão ficou clara na WCCC, conforme demonstrou a reportagem citada no início deste artigo. O próprio Hybels diz: “Nós cometemos um erro. O que deveríamos ter dito e ensinado às pessoas quando elas atravessaram a linha da fé e se tornaram cristãs é que devem tomar responsabilidade para se nutrirem. Nós deveríamos ter cuidado das pessoas, ensinando-as a ler suas Bíblias entre os cultos, bem como praticar suas disciplinas espirituais mais agressivamente, de forma individual”.

A liderança da WCCC admite que as tais atividades e programas, embora colabore com o crescimento da igreja, não colabora com o crescimento espiritual das pessoas.

A sedução que os tais métodos exercem sobre os líderes eclesiásticos do Brasil é algo a ser repensado. Sem dúvida alguma as igrejas cristãs precisam mudar sua organização, sua gestão, sua forma de lidar com as pessoas e seus problemas. Precisam mudar também sua forma de comunicar a Palavra, de modo a faze-lo de forma integral mas tornando-a próxima da realidade do ouvinte. Estas mudanças, porém, não virão com a simples adoção de metodologias baseadas em meia dúzia de apostilas.

É preciso um grande e sério esforço no sentido de fazermos algo que é muito difícil no meio evangélico: ser simples.

Segunda-feira, Dezembro 31

Feliz 2008!

A todos os que passaram por este espaço durante o ano de 2007, concordaram, discordaram, elogiaram e criticaram meus votos de um ótimo 2008, com a vivência do Evangelho em sua integridade e a Graça do Pai dia após dia.

Até o ano que vem!